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Sexualidade Feminina

Foto do escritor: Lília PalmeiraLília Palmeira

(emma-plunkett-art-uterus)


Nos últimos milhares de anos, e ainda em muitas culturas, a sexualidade feminina tem sido considerada uma coisa ruim, inferior e/ou depreciativa.

Para o ser humano, principalmente para a mulher moderna, a transformação pela qual passa durante a puberdade é algo difícil e doloroso não só fisicamente. E é justamente este período que vai afetar a fase adulta deste ser em seus principais aspectos: físico, mental, emocional e, conseqüentemente, espiritual.

O rito de passagem da criança para a mulher acontece com a Menarca - o primeiro mênstruo.

O conceito de sexualidade é amplo na medida em que se situa entre a natureza e a cultura. Natureza no que se refere ao biológico, mas, sendo o biológico "traduzido" e reinterpretado pela cultura, podemos dizer que a sexualidade – como a conhecemos – é uma construção social. E como as relações sociais se dão dentro de um campo de poder, o conceito de sexualidade comporta também uma dimensão política: a relação do poder entre os sexos.


O discurso de nossa sociedade, ainda hoje, pretende encaixar a mulher em modelos de comportamento rígidos, mantendo-a numa estreita faixa que delimita o "permissível" dentro da sexualidade como sendo uma atitude passiva de expectativa e de aceitação. Por isso é difícil para a mulher assumir a sexualidade como algo seu. Essa dificuldade se faz sentir em vários aspectos, como, por exemplo, no que se refere à CONSECUÇÃO do prazer sexual que, segundo os parâmetros culturais, deve aparecer como "doado" pelo homem. Não se trata aqui de propor uma simples inversão de valores, delegando apenas à mulher a parte ativa na relação sexual, como defendem algumas equivocadas "feministas de plantão".


A relação homem/mulher, inclusive sexual, deveria ser partilhada, pois seus impasses ou sucessos dependem de ambos os parceiros.



Devemos ressaltar neste ponto a questão da polaridade que independe do fator biológico-sexual. Existem mulheres ativas (positivas); assim como passivas (negativas). E na mesma proporção homens ativos e passivos.



A vivência da sexualidade, tanto masculina quanto feminina em nossa cultura é permeada pelo desconhecimento, pela incapacidade de se falar naturalmente sobre ela. Que motivos levariam o indivíduo a negar o saber que possui sobre si mesmo? Moldar a identidade pelo desconhecimento é uma estratégia de sobrevivência desenvolvida no sentido de cumprir o modelo social estabelecido. Essa negação de um saber sobre si mesmo proporciona que todo um esquema de sujeição possa ser desenvolvido e internalizado. Assim, a menina "sem maldade" é aquela que ignora o segredo do seu corpo e de sua sexualidade, ou que esconde o seu saber; entretanto os valores, as normas e interdições sociais configuram "modelos sociais" diversos para o homem e para mulher. Para o homem é, sobretudo, um modelo que consente, que incentiva a fazer. Espera-se que ele exerça a sexualidade (mesmo que de maneira deturpada), e o "bom" desempenho sexual é uma preocupação e uma pressão fisiológica comum. E de pensarmos que a melhor maneira de nos relacionarmos com a menstruação seria ignorá-la tanto quanto possível e, assim como todas as mulheres, conviver com barrigas doloridas e um humor terrível? Esta atitude está enraizada na negação da feminilidade (silêncio), negação esta que atravessa a história dos últimos milhares de anos.

Em um tempo mais distante, quando homens e mulheres adoravam a Grande Deusa, ou o Grande Mistério, não existiam esses entraves quanto à sexualidade; tudo era mais simples e natural. Depois, já no período Matriarcal, houve uma restrição dos papeis masculinos, onde a Natureza feminina transformou-se, pouco a pouco, em "mistérios" aos quais os homens tinham pouco ou nenhum acesso. Perdeu-se, lentamente, o entendimento da Grande Deusa, e o Culto ficou restrito à Deusa, que deixou de ser uma Face para ser o Centro do Culto.


A cerca de três mil anos a.ec. (na contagem oficial) deu-se início o deslocamento, em longo prazo, do pêndulo da história humana e, à medida que passávamos ao Patriarcado, os valores foram sendo orientados para o masculino e a posição das mulheres na sociedade foi sofrendo uma transformação de tal ordem que os aspectos da vida relacionados ao feminino foram denegridos. Este período coincide com o que os hindus chamam Kali Yuga ou Era da Escuridão e da Confusão.


Com o decorrer do tempo, isso levou a uma associação da vergonha do corpo e ficamos dependentes da mente. Nos últimos milhares de anos as principais religiões do mundo surgiram como patriarcais (em vários planos).


A vergonha do corpo e a vergonha de ser mulher rapidamente se acrescentam à vergonha da menstruação.

Há uma "vergonha" incutida na humanidade, que as mulheres "carregam" pelos simples fato de serem mulheres: no mito de Adão e Eva, tal como foi e é interpretada, a vergonha masculina só existe por causa da presença da mulher, que com sua intuição "deu ouvido" à Serpente e partiu em busca da Sabedoria (e onde está o erro??). Seria bom que levássemos a sério estas histórias, pois embora não sejam factuais, são as pedras angulares dos dogmas religiosos atuais do Ocidente e Oriente Médio.


Na Idade Média, para dar apoio religioso ao patriarcado ocidental, houve algumas re-criações sutis — e outras não tão sutis assim — dos velhos mitos. As mulheres passaram a ser corruptoras e deviam ser temíveis e repudiadas pelos servos de um deus totalmente masculino. A própria Gênesis foi deturpada para que isso pudesse acontecer. O Conhecimento do Bem e do Mal passou a ser o conhecimento do Sexo (como uma coisa "do diabo") sendo a Serpente colocada como o próprio Mal, Satanás, ou "Príncipe das Trevas", ao invés de reconhecê-la como SHAITAN, O que traz Sabedoria. E assim, Eva (a rameira com seus insidiosos poderes de sedução) corrompeu o inocente Adão, não porque ela buscasse o conhecimento e sim porque ela queria sexo. E a maldição de Deus caiu em forma de dores para gerar os filhos: "com dores você vai parir os filhos. Você vai desejar seu marido, mas ele será seu dono" (Gen. 3:16) e foi incluída aí a menstruação como a "maldição" mensal através da qual Eva (todas nós) paga por seus "pecados". Aqueles que deturparam o mito não se ativeram para um detalhe: que com esta versão eles consideraram todos os homens, incluindo a si próprios, como idiotas manipuláveis.


O aumento do poder do patriarcado continuou seu percurso e embora práticas pagãs continuassem existindo em alguns pontos da Europa até a Idade Média, o Cristianismo as "destruiu", auxiliado pelas mudanças sócio-econômicas e pelo terror das guerras e da peste.

Depois do Cristianismo foi a Revolução Industrial do século XIX que trouxe novas mudanças: as mulheres foram divididas em três estereótipos culturais: as estóicas parideiras e operárias, as mulheres frágeis, e as prostitutas.


Para as operárias a menstruação era um incômodo que baixava sua produtividade, para as donas de casa era a comprovação da fragilidade, para as prostitutas, dias sem clientela.

Isso influenciou todo o processo posterior até chegarmos, com essa herança, na sociedade atual.

À medida que um número crescente de mulheres sai para trabalhar e que a nossa sociedade se desenvolve em termo de equivalência sexual, o estereótipo da mulher frágil e dependente vai-se desvanecendo. Já é mais um motivo de escárnio que um sinal de status. Passamos a dar maior valor à produtividade que ao lazer, e, para as mulheres já não é tão satisfatório ou econômico permanecer em casa.


De início, o feminismo moderno rejeitou as idéias da influência hormonal sobre as mulheres. Se as mulheres fossem julgadas inconfiáveis e/ou inconstantes devido às mudanças em seus hormônios no decorrer do mês, esta suposta inconfiabilidade era utilizada como uma razão para mantê-las afastadas das posições de poder. Em vista disto as "feministas" pregaram, equivocadamente, a TOTAL IGUALDADE COM OS HOMENS. Mas essa necessidade de conquistar a igualdade no mundo profissional nos conduziu a dispensar algumas idéias boas junto com as ruins.

Em geral, há pelo menos um vislumbre de verdade em qualquer ideologia, e os médicos do período Vitoriano não estavam completamente errados ao enfatizarem a importância da menstruação na saúde global das mulheres, o relacionamento entre o útero e o psiquismo e a sensatez do repouso durante o período menstrual. Rejeitamos essa idéia por nos lembrar a impotência e a "doença". Mas dizer-se que algo não é uma doença não significa necessariamente o mesmo que ignorá-lo completamente.


As mudanças sociais durante os últimos quarenta anos podem parecer uma revolução, mas de muitas maneiras o que tem ocorrido é uma assimilação. As mulheres que buscam poder em um "mundo masculino" têm se voltado para isso, tornando-se pseudo-homens. Vários discursos feministas tentam (e conseguem por vezes) derrubar tabus, mas incorrem no erro de dizer que "nenhuma mulher menstruaria se não fosse obrigada a isso" (Germaine Greer em The Female Eunuch). Essa foi em grande parte a linha seguida pelo feminismo nos idos de 1960 a 1970 e só com a ascensão do movimento da espiritualidade feminina a menstruação começou a ser considerada algo sagrado e significativo.


Somente agora, em pleno século XXI, certos tabus sobre a sexualidade feminina estão a cair.


Continua....


Publicado originalmente em Sociedade Lamatronika®

Lilia Palmeira 2007-2017

Referência Bibliográfica

Berenstein, Dr. Eliezer: A Inteligência Hormonal da Mulher. Como o ciclo menstrual pode ser aliado, e não inimigo, do equilíbrio feminino. Editora Objetiva Ltda: 2001. Rio de Janeiro.

Budge, E.A. Wallis: The Gods of The Egyptians, or Studies in Egyptian Mythology. Vols. I – II. Dover Publications, Inc: 1969. New York.

Campbell, Joseph: As Máscaras de Deus. Vol. I (Mitologia Primitiva). Editora Palas Athena: 1992. São Paulo.

Castãneda, Carlos: O Segundo Círculo do Poder. Editora Record S.A.: 1995. Rio de Janeiro

Daniélou, Alain: Shiva e Dionísio. A Religião da Natureza e do Eros. Martins Fontes Editora Ltda: 1989. São Paulo.

Eliade, Mircea: História das Crenças e das Idéias Religiosas. Tomo 1 (Da Idade da Pedra aos Mistérios de Elêusis), Vol. I (Das Origens ao Judaísmo). Zahar Editores S.A.: 1983. Rio de Janeiro.

Qualls-Corbett, Nancy: A Prostituta Sagrada. A Face Eterna do Feminino. Edições Paulinas: 1990.São Paulo.

Owen, Lara: Seu Sangue é Ouro. Editora Rosa dos Tempos.

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